Uma abordagem sobre as Profissões...

Este é um tema sobre o qual tenho falado muito mesmo. Principalmente nas universidades onde tenho tido a oportunidade de falar aos estudantes, e apoiar vários que me solicitam, a encontrar soluções e caminhos profissionais.

Isto tem tantos caminhos para analisar, e discutir, que se torna extremamente difícil focar. Ainda assim, vou tentar abordar o tema, em três dimensões. O primeiro emprego, a reconversão de competências, e a continuidade na carreira.

Mas antes disso, e, na minha opinião, absolutamente estruturante e basilar para todo o tema. Uma verdade que me parece absoluta. As profissões de hoje, não são as mesmas de há 50 anos atrás. Mais, nem mesmo as de há 10 anos atrás. Mas acresce que, daqui a 5 anos, haverá funções, que nada têm a ver com as necessidades de hoje. E muitas das que ainda hoje existem, daqui a 5 ou 10 anos, já não serão obsoletas. 

Outro tema ainda, aplicável à realidade portuguesa, é o balanço entre o privado e o público. Entre estes e a iniciativa privada, e ainda entre todos estes e os profissionais liberais, e ainda os empreendedores. O sonho da "minha própria empresa". Mas aqui, simplifiquemos, neste artigo, para o balanço entre o público e o privado. E aqui abordo desde logo, 2 carreiras que creio mais "na berra". Mas, apenas e só, como exemplo. Sem as querer detalhar no artigo.

Os médicos e enfermeiros.

Parece ser óbvia a existência de uma falta significativa destes profissionais no SNS. Foi óbvio durante anos, e ainda é, que os médicos tem maiores rendimentos no privado que no público. Saúde é um negócio fantástico em qualquer canto do país. E ao que parece, quando no privado, não há falta de médicos e enfermeiros e auxiliares e outros. No SNS é o caos e a míngua, a que todos os dias assistimos. Não vou entrar em detalhes, porque esta situação tem muitas vertentes de análise e muitas causas, incluindo a falta de noção e o mau uso do SNS por parte da população. Por exemplo, a dor de cabeça que leva ao hospital. Eu sou um defensor acérrimo do nosso SNS. Acho-o fantástico e muito acima da média. Mas uso-o seguindo as instruções e o modelo de utilização do mesmo. 

Estas são profissões onde temos mesmo que investir muito, formar mais, porque temos falta. 

Os professores.

Este é um problema diametralmente oposto. Nós não precisamos de mais professores, e talvez de muitas das dezenas de milhar que temos ainda com o Estado a pagar. É um facto. Portugal tem que despedir professores. Gente. Não há alunos. Cada vez temos menos crianças e jovens a precisar de professores. Portanto, há que encarar isto de frente. Não precisamos de mais! Precisamos de despedir. No máximo, temos aqui, um problema sério de distribuição dos profissionais existentes pelo país. E isto não se trata, de todo, de a educação não ser um pilar fundamental da nação. Não. Trata-se que temos gente a mais. 

Esta é uma profissão em que temos que desinvestir, não formar mais, porque temos a mais.


Peguei nestes dois exemplos, como outros tantos há, para introduzir uma perspetiva que, acredito pela minha experiência profissional, é aquela em que a sociedade, quer como empregado quer como empregador (incluindo o Estado) devia abordar este tema. 

É que temos vivido numa abordagem de encontrar emprego/trabalho/profissão para a pessoa. Em vez de, como devia ser, encontrar o/a profissional para o emprego/trabalho/profissão.

A primeira abordagem tem gerado, e continua a gerar, inúmeros problemas. Na gestão pública e privada, na educação e nas pessoas. Porquê? 

Na gestão pública, o tal empregador que há 50 anos era o empregador seguro para a vida (e ainda hoje os funcionários vivem nessa ilusão e expectativa). Mas hoje não é. Nós como cidadãos não queremos um Estado pesado. Mas o ponto é que se mantém uma análise da situação do tipo "temos que arranjar emprego para as pessoas". E isso leva muitas vezes a que se encontrem soluções que não fazem qualquer sentido, para a sociedade e nação. Temos uma máquina estatal pesadíssima, ainda. E com falta de coragem para ver a outra perspetiva. Nós não precisamos destes funcionários. Ponto. Precisamos é de outros que não temos. Mas, entõ convertam-se os funcionários, através de novas competências, novas carreiras, e por ai fora. Vamos bater no problema, em que estas pessoas, como vivem na primeira abordagem, não querem converter. Ou, por vezes querem e os processos de conversão são vergonhosos. 

Na gestão privada, a situação é igual. Quantas e quantas empresas, de todas dimensões e indústrias, não fizeram já o processo de criar funções para aquela(s) pessoa(s)? Quantas entradas em empresas não foram já para garantir emprego à pessoa, em vez de suprir uma necessidade funcional com o trabalhador mais apropriado? O tema mantém-se. Por isso, também, é que é dos maiores problemas profissionais em Portugal, está mesmo na (falta de) qualidade da gestão intermédia.


Na Educação. E aqui, confesso, o que penso ser mais preocupante, porque tem impacto nesta e nas próximas gerações. Só aqui mesmo podemos resolver o problema. 

Os nossos pais (os Baby Boomers), nós como pais (os Generation X), fomos educados e educamos, que ser Dr. é que é seguro e importante. Que algumas profissões é que interessam, as outras são para os maus alunos. Queremos médicos, advogados, diplomatas, engenheiros, professores, e por ai. Porquê? Porque sim, Porque isso é que são profissões "dignas".

É exatamente aqui que tem que haver coragem para mudar de vez. Mudar para a segunda abordagem. A sociedade, o mundo, a vida, e, por consequência as profissões. São e serão cada vez mais abordadas pela segunda abordagem. Encontrar as pessoas certas para as funções! (Na realidade, será ainda mais à frente, porque as funções terão cada vez menos fronteiras... Mas não compliquemos aqui neste artigo).

Por outro lado, temos ainda todo um sistema educativo (incluindo os encarregados de educação e famílias) orientado para o objetivo final de que os nossos filhos sejam Mestrados, ou no mínimo Licenciados. Porque só assim "serão alguém". Isto continua a ser verdade. Facto! Mas em quê? Para quê? 

A verdade é que ao termos, cada vez mais a sociedade e o capital a exigir as pessoas certas para os lugares certos, teremos cada vez menos lugares "errados" e cada vez menos pessoas "erradas". Cada vez seremos mais exigentes com isto. Todos nós.

O ponto é este. Quando escolhemos uma linha de educação, com o objetivo de trabalhar nessa linha de opções profissionais, temos que fazer (ensinar a fazer) a primeira pesquisa óbvia. Há mercado de emprego para isto que eu gosto? Onde? É que pode ser na China! Fantástico. Temos é que nos preparar para ir para a China a seguir. Porque é lá que sou preciso! Cá não. Mas eu sabia que cá não havia mercado de emprego para isto, e decidi, mesmo assim, continuar porque é mesmo o que eu quero. Fantástico. Mas depois não dá para vires queixar que isto é uma treta e não há trabalho para os jovens. Já sabias! Quantos milhares de jovens neste país não estão assim? 

Depois aqueles casos típicos. Tirei eu um curso de XXXX para agora estar a fazer isto? Como é possível um Licenciado como eu ganhar menos que o meu amigo que nem tem o curso e arranjou logo emprego e já tem um ordenado assim? Porque não consigo eu trabalho? E mais casos que conhecem melhor que eu, provavelmente.

Goste-se ou não. Ideologicamente a favor ou não. É a bendita, eterna e infalível Lei da Oferta e da Procura! Que hoje é uma verdade indesmentível, em toda a dinâmica social. 

Junte-se ainda outro facto, normalmente desprezado nesta análise. A evolução da economia, da sociedade, e, muito, da tecnologia, mudam, criam e extinguem profissões. Também por esta razão, muitas pessoas ficam descontextualizadas profissionalmente a meio da carreira. E depois voltar ao mercado torna-se um inferno. Porquê? (Claro que há imensas razões). Porque, muitíssimas vezes, ficaram sem trabalho, porque o que faziam já não faz sentido. E, não tendo essa noção, voltam ao mercado de trabalho à procura de emprego exatamente naquilo em que "são excelentes a fazer". Só que já não faz falta.

Para terminar.

A Lei da Oferta e da Procura é Lei também na ligação entres os Mercados de Emprego e de Trabalho.

Cada vez vamos mais à procura da pessoa certa para a necessidade previamente identificada, em detrimento da encontrar uma função para a pessoa.

O Estado terá que ir assumindo as anteriores afirmações, mesmo que gradualmente.

Estas afirmações, estas verdades, têm que ser ensinadas e interiorizadas pelas próximas gerações (nomeadamente a Generation Z, porque os Millenials já o sentem na pele).

A Formação Universitária não é um fim. É apenas o aprender o melhor possível a capacidade de Aprender, Interpretar e Aplicar. 

Prometo voltar a este tema. Numa ótica de "afinal qual o profissional que vai ser necessário daqui a anos?"



jnfb





Comentários

Mensagens populares deste blogue

Ode aos Benfiquistas. Joaquim Ferreira Bogalho

Civismo. (ou falta de...)

Perdi-te!