Educar o Profissional do Futuro (Presente)



Na realidade, ninguém pode garantir exatamente que competências, skills, formação estrutural e complementar, vamos precisar de ter, para sermos um excelente profissional daqui para a frente.

Pego em cinco exemplos da minha própria experiência de vida.

Recordo bem de apenas haver TV a preto e branco e apenas dois canais, sem comando remoto, cujas emissões terminavam lá para a meia-noite em dias fantásticos. Hoje a TV tem centenas de canais, já vamos no 4K, 24/7 de emissão, comando(s) remotos, PCs integrados, com internet. E tende a não ser o local preferido para ver "imagem com som". Tablets, Smartphones, etc... são o futuro. Hoje.

O primeiro computador pessoal que vi na vida, era um Spectrum 64K, onde eu era um super user, porque além do famoso Load"", sabia programar em Miscrosoft Basic. O primeiro desktop em que trabalhei, não tinha Disco. Tinha duas floppy de 5'1/4. O primeiro disco rígido tinha 20MB. Hoje qualquer gadget básico tem GBs de memória... TBs.

A internet chegou já eu passava bem, mas bem, dos 20 anos de idade... Era uma festa quando se conseguia ligar. Dial-up. Num local específico, e apenas ai. Hoje a internet é uma commodity disponível "no ar", em qualquer lado... no autocarro, no metro... no avião... hoje um café que não tenha internet "à borla", não tem clientes. Hoje o www não é "um mundo". É "o mundo". Algo que está sempre "on" na nossa vida.

A informação circulava, no "Telejornal" e nalguns jornais impressos. Hoje entra-nos por imensos canais, 24/7. Fazemos perguntas ao computador e ele responde, seja qual for o motor de busca utilizado.

O meu primeiro telemóvel, eu já tinha mais de 20 anos de idade. Era isso. Um telemóvel. Memória nem era conceito. Nem Sistema Operativo. Era um aparelho que fazia chamadas. Custava uma fortuna. Hoje, o mais básico dos smartphones, tem os quatro elementos anteriores, em muito mais capacidade, qualidade, e a fazer coisas que nunca imaginei há menos de 30 anos.

Tudo isto eram ferramentas para alguns. Hoje são absolutamente democratizadas e acessíveis a todos.

Em menos de 30 anos, o mundo sofreu, seguramente, a maior transformação / revolução tecnológica de sempre. Sendo que, diz-se, ainda vamos nos primórdios.

E todas as pessoas que foram nascendo nestes últimos 30 anos, foram encontrando e acedendo a um mundo cada vez mais diferente, avançado, onde é as barreiras se medem em largura de banda e capacidade de armazenação e processamento. São outras variáveis que regem hoje as dificuldades.

Podia enumerar muito mais transformações. Deixo apenas uma mais. O quão pequeno e acessível o mundo se tornou, do ponto de vista geográfico. Aviões de e para todo o lado, comboios, inexistência de inúmeras fronteiras, moedas correntes comuns.

Ora face a toda esta transformação, ao nível das profissões, a nossa sociedade, ainda é muito resistente à mudança das "profissões". Com toda a probabilidade, jovens que agora enfrentam as escolhas de cursos e/ou profissões, são ainda influenciados (seja em casa, seja num conjunto de paradigmas que ainda vigoram a sociedade) a escolher as "profissões sérias" - advogado, médico, engenheiro, e por ai.. Porque a formação dos educadores, os curricula escolares, ainda estão muito formatados para a realidade de há 30, ou 20, ou 10 anos atrás.

Qual o problema? É que estas pessoas vão entrar num mercado de trabalho, carregado de posturas tradicionais, a enfrentar um mercado de emprego que vive a atualidade e é "vítima" de toda a transformação e revolução acontecidas.

E estamos a demorar demasiado tempo a entender e integrar isto nas nossas instituições educativas, no modo de apreender e partilhar conhecimento. (Esta uma das transformações geracionais mais profundas. A entrar na época da partilha, do "sharing", saindo da postura da pertença e posse.

Continuamos a gerar demasiados potenciais profissionais, de profissões que estão em vias claras de diminuição radical ou mesmo extinção. Continuamos na postura que a formação universitária é o fim da carreira de aprendizagem. Mantemos os olhos fechados às novas profissões (algumas já tão novas assim). Ao facto de que aprendizagem não é um achievement, mas sim uma ferramenta de trabalho em constante evolução.

A obrigar as pessoas todas a aprender coisas que estão hoje à distância de um click ou swipe na internet. Em vez de desenvolvermos competências como criatividade, globalidade, skills e proficiências em tecnologias...

Sim claro que teremos que continuar a ter muitas profissões do passado. Mas, não temos que ensinar a TODOS as mesmas coisas. Não têm todos que aprender as mesmas coisas. Junta-se que continuamos com o estigma das meninas não serem programadoras, ou IT oriented. Porque serão profissionais em coisas de senhoras... E no entanto, o mercado, só em Portugal, tem falta de dezenas de milhares de programadores.

E como? Como mudamos este paradigma?

Para já a má notícia. Vai demorar. Porque demora anos a formar e educar pessoas, e porque a resistência à mudança dos que já cá estão a trabalhar, será sempre enorme. Mas, há que fazer e depressa. Desde as primeiras palavras. Não só quando chegam aos cursos superiores.


Desenvolver competências de auto aprendizagem contínua.

Precisamos de ser profissionais ávidos de conhecimento. Na procura incessante de mais conhecimento, no que fazemos e em tudo o que rodeia a nossa produção, o nosso delivery. Agregado a este conhecimento auto adquirido, a noção profunda de que temos que o partilhar. Partilhar o que sabemos, como chegamos à solução. Porque é por ai que o mundo caminha. 


Desenvolver competências de criatividade e que cruzem áreas distintas de conhecimento.

Temos que ter a noção que neste mundo de hoje, os limites estão apenas e só na nossa capacidade de imaginar, de criar. Tudo pode ser feito. Neste novo mundo, os limites só estão em nós. Não no meio, não na tecnologia, não na sociedade. Esta é talvez a mudança de paradigma mais difícil. Creative learning, design thinking, e tantas outras formas, terão que ser as metodologias de ensino basilares, em detrimento do conhecimento empírico ainda reinante.


Desenvolver competências culturais e de não-descriminação.

A noção de globalidade, política, cultural, geográfica, tem que ser um dado adquirido nestes profissionais. O respeito pelo próximo, tem que ser a base. O entendimento claro e a capacidade de adaptação, de respeitar e fazer respeitar, as crenças religiosas, as orientações sexuais, a cor, o género... Não vai haver espaço para ser um profissional excelente, de topo, sem esta habilidade. Não apenas declarada, mas terá que ser intrínseca. Basilar.


Desenvolver a competências de empreendedorismo.

Não no sentido hoje tão main stream do empreendedor. Já se desvirtuou demais este conceito. Falo da capacidade de imaginar uma solução, de conseguir planear e executar a sua passagem à realidade, de busca do conhecimento que não tenha, da escolha apropriada da equipa, da definição de planos e da gestão por objetivos, e por projeto, das fontes de financiamento, das implicações legais, da resiliência e continuidade na prossecução do objetivo. No sentido que o resultado financeiro, o pagamento do meu trabalho (o prémio), só vem com os resultados da venda da minha ideia. Parece um lugar comum. Mas não é. De todo. Importa realçar, aqui, a extrema importância de conseguirmos ver a nossa profissão, na lógica em que eu profissional, sou uma empresa. Eu compro informação / produtos / conhecimentos, ao meu fornecedor (será o outro trabalhador que executou uma tarefa antes de mim); que processo, acrescento o meu valor, transformo, e preparo para entregar ao meu cliente, seja ele o trabalhador seguinte, que usará o resultado do meu trabalho, seja o cliente, que comprará o produto ou serviço. Esta noção implica o controlo de qualidade, à compra ao meu fornecedor, e à venda ao meu cliente. Obviamente, implícita, a forte noção e obrigação na qualidade do meu output, do meu delivery, daquilo que executo nesta cadeia.


Desenvolver competências de Tecnologias de Informação.

Não vejo como será possível, um profissional, seja em que área for, não ter fluência absoluta com tecnologia. A utilização massiva de software e aplicações para o trabalho, para a sua monitorização, para o controle, para a execução... A programação em linguagens e ambientes universais terá que ser basilar. Na 4ª classe... Escrever em Português será sempre crucial, mas em HTML (um exemplo como tantos outros) também. 


O domínio fluente de pelo menos 2 línguas além da nossa nativa.

Não é possível ser este profissional, sem dominar fluentemente o inglês. Não dá. O mundo, a tecnologia, está em inglês. A globalidade tende a uma língua. O inglês. Penso que quanto a esta não há espaço para dúvidas. Depois escolher outra, consoante a nossa aposta profissional. Talvez por motivos de abrangência geográfica. Se adicionarmos o espanhol, entramos a outro nível, em toda o continente americano. Temos as 3 línguas lá faladas. Se queremos ir para o Leste, acrescentar o Russo, base para toda a região. Ou para a Ásia, talvez o mandarim. Ou todas estas mesmo... Acredito que o domínio de 3 línguas será basilar em poucos anos. E o fator diferenciador virá na 4ª ou 5ª. Ainda estamos na 2ª em termos de educação.


O domínio do EU profissional.

É. Adquirir e incorporar a noção clara, que nesta cadeia profissional, somos um elemento de produção, que se quer altamente produtivo. Para isto o EU "máquina", o EU organismo, tem que estar em pleno funcionamento, para suportar todas as competências. Tenho que saber conhecer, dominar, educar, melhorar, afinar o EU "máquina".
Terão que ser estruturantes o saber alimentar, o saber exercitar, o saber cuidar e evitar a doença, o conhecer profundamente o meu mecanismo, para o saber potenciar, e nunca deixar que que perturbe o meu EU profissional. Saber trabalhar a mente, o corpo, o exercício físico, a alimentação.


O conhecimento do EU.

Para finalizar, é fundamental percebermos quem somos, o que queremos, o que gostamos e não gostamos. Onde queremos mesmo chegar. Saber orientar a nossa vida nessa direção. E a isso, tudo dedicar. A opção é nossa. Não de terceiros. E se não o fizermos, continuamos a "passar pela vida", e a culpa é nossa. Só nossa. Não nos podemos queixar. Foi nossa opção. 


Fica a ideia.

jnfb


Comentários

  1. Meu querido amigo João Nuno subscrevo na íntegra estas tuas reflexões! Um abraço!

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    1. Obrigdo Camila Jardim. Bom saber que segues o meu blog. Porque se há quem não tenha medo de discordar és tu ;)
      Obrigado pela atenção

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