(Des)Gosto de Ti


Talvez seja uma das situações mais complexas, e que mais nos faz sofrer. Mas que tende a esconder-se por baixo do óbvio. E, talvez por isso, demoramos tanto a assumir. E, ainda mais, a atuar perante a fatalidade inevitável.

Gostas de uma pessoa. E à medida que vais conhecendo gostas cada vez mais. A pessoa vai demonstrando que gosta de ti. Porque gostas, e queres que este gostar biunívoco continue e fortaleça, vais abrindo mais de ti. Partilhando, agradando.

Chegas mesmo ao ponto de dizer o que gostas e não gostas. O que te faz bem e mal. O que te alegra e o que te magoa. Porquê? Para teres a certeza que a pessoa de quem gostas, saberá perfeitamente como te demonstrar que gosta ou não gosta de ti.

E como gostas, quando o outro demonstra necessidade, vais, fazes, aconteces, garantes que supres a necessidade. Imagina que até és daqueles que antecipas a necessidade e a resolves. Que assumes para ti as dificuldades, para que a pessoa de quem gostas, se sinta melhor.

O gostar, e demonstrá-lo, na minha visão, passa muito por aqui. Não é um “like” é o gosto fatual demonstrável.

Até aqui, será fantástico. Gostas e fazes gostar. E vice-versa.

Mas com o tempo, e tantas e cada vez mais vezes isto é uma verdade na nossa vida, começas a sentir que, a balança esta inclinada. Sentes-te a gostar e demonstra-lo factualmente, mas sentes cada vez menos o mesmo do sentido contrário. Talvez a prudência te faça tentar esclarecer. 

Inevitavelmente, as palavras que te são dirigidas, continuam a dizer que gosta, que te quer ao lado. De novo com prudência, alertas para o que gostas e não gostas. O que te magoa. Explicas o que te está a fazer sentir o contrário das palavras.

E sentes que a balança começa a ter mais débito e menos crédito. E de forma crescente. Sentes que cada vez mais é debitado no teu lado, e cada vez menos do lado de quem gostas.

E a partir daqui, estás em sofrimento. E é a partir daqui que tudo se torna uma caminhada dolorosa. E, a cada dia que passa, se torna mais evidente o que tem que ser feito. Mas ao mesmo tempo, mantém-se esta dificuldade imensa de o fazer. Porque tu gostas. Mas gostas genuinamente.

Mas a verdade, é que a pessoa de quem gostas, já não gosta. E por muito que te diga que sim, sabes e sentes que os atos demonstrados, são, cada vez mais, na direção oposta.

E às tantas a tua dor é múltipla e exponencial. Porque se é verdade que gostas, é mais verdade que te dói cada vez mais. E ai, tantas vezes, ainda recorres ao recurso do tipo: “vai perceber que está a fazer mal e a magoar, e vai cair em si e recompor a postura”.

NÃO vai. Porque não gosta. Porque se gostasse saberia exatamente como demonstrar que sim, e evitar tudo o que bem sabe te magoa.

E enfrentas o desafio final. Não quero deixar de gostar, gostava que gostasse, mas manter este gosto magoa cada vez mais. E de quem gostas demonstra cada vez mais que não gosta, e como to demonstrar eficazmente. Mas estás toldado por estes gostar.

Até que chega o dia, o momento, tantas vezes precipitado por quem tu gostas, em que só uma imensa estupidez te poderia manter o crédito em quem gostas.

E vem o corte. Normalmente não o farias, porque sabes que te vai doer horrores. Mas sabes? Só dói uma vez. Ao contrário das dores contínuas que já há tempo vens sentindo.

Quando gostamos, devemos procurar saber exatamente como o demonstrar a quem gostamos. Porque, no final, o princípio é o mesmo. Se queres que o outro perceba a tua mensagem de gosto, terás que a transmitir da forma em que quem tu gostas, sinta efetivamente que gostas. Porque o fato de tu achares que gostas, per si, é insuficiente. Porque de quem gostas não o sente para si.

O gostar tem sempre dois lados. E têm que estar tendencialmente equilibrados. Caso contrário, um dos lados está em sofrimento.

Se gostas, demonstra-o. Mas na forma em que quem gostas o entenda e sinta. Não lhe mandes chocolates, quando sabes que lhes tem alergia.


jnfb



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