Os Livros Escolares e o Peso das “Mochilas”
Há já nem sei quantos anos, a esta altura volta a eterna e interminável discussão do peso que os miúdos levam nas suas “mochilas” para a escola. Obrigatoriamente. Nos anos mais recentes, a discussão e a “revolta” vai tendo mais ruído. Mas, tal como está, estamos claramente numa daquelas infelizes situações em que “os cães ladram e a caravana passa”.
Há uns anos que para mim está claro que este assunto não entra na agenda da decisão, apenas porque não interessa. Parece-me relativamente óbvia a solução, e que apenas não é implementada, por um lado, pela redução de rendimentos directos das editoras envolvidas, por outro, porque, há - em governos sucessivos - para além de interesses envolvidos, uma clara obtusidade e falta de visão estratégica. Optando, por soluções cretinas e estúpidas (do ponto de vista da gestão do dinheiro público) que apenas servem de bandeira política. Exemplo. Livros gratuitos ao 1º ciclo. Assim. Claro que as famílias agradecem.
Mas isto é não me parecer uma decisão inteligente. Por um lado, os livros mantém-se e não se reduz os pesos das “mochilas”, por outro, os custos continuam a existir. Só que agora não paga o beneficiário directo. Pagamos todos nós. Posso ter o direito a dizer “espera aí que eu já paguei os dos meus filhos”, e muitos muitos milhares de euros. Porque não pagam os dos meus filhos? Enfim. Claro que há que começar por algum lado. Apenas que para mim, não é mesmo o caminho.
Não querendo entrar pelo tema de não termos uma visão para o país, e uma orientação clara de onde queremos estar daqui a uma geração, ao menos que haja uma estabilidade clara, no que queremos ensinar nos próximos anos. E assim, consubstancia-se a possibilidade de ter os programas curriculares imutáveis durante esse período. Assumamos o período de 5 anos.
[É verdade que já se afirmou isso e tenta-se implementar. Facto. Os livros não duram os 5 anos. Jamais. Muitos nem um... Portanto o princípio está correto, a implementação carece de inteligência e visão. E acima de tudo de independência decisória sobre as Editoras].
Ainda, quando se ouve discussão sobre isto, apresenta-se sempre soluções isoladas, que naturalmente, nunca vencerão, porque a solução não é única.
Partilho o que aconteceu com a minha filha.
No 11º ano, foi estudar para os EUA. Irrelevante o porquê e o como. Facto, foi sozinha para os EUA, fazer o 11º ano.
Uns dias depois de começar as aulas, num Liceu público, lembrei-me. Filha então e os livros? Malas, etc. Tudo tratado? “Pai, Livros?? Mala?” Ups. Cota!
A solução é demasiado simples. Com o “check-in” no liceu, é-lhes entregue o tablet, um user e uma password. That easy. E cada aluno tem o seu cacifo. Feito.
Ora bem, não há nenhuma razão objectiva para isto não ser feito em Portugal. E a dos custos, não é de todo válida.
Sobre custos do hardware. Para o efeito, estamos a falar de tablets, com um conjunto de características específicas. O PVP deste hardware, é significativamente mais barato do que uma família gasta em média, em Portugal, para os livros Obrigatórios. Para não falar do preço negociado para compra em quantidade. Não é um tema. Mais. Pode perfeitamente estipular-se um período de vida de um tablet entregue a um aluno. Na eventualidade de haver estragos, mau uso, roubo, etc., terá que haver penalizações financeiras envolvidas. Isto é tão básico.
Sobre os custos do software. Os conteúdos podem ser exactamente os mesmos. Apenas que não impressos... Só poupança. Por um lado utilizamos (muito) menos papel, o que indirectamente também tem vantagens ambientais. Não deixa de ser curioso que as Associações Ambientalistas não venham a estas discussões como defensores de uma opção deste tipo. Mesmo o facto de que terá que haver programação, desenvolvimento de aplicações específicas, backoffices, sites e etc., não é justificativo. Porque o investimento mais significativo é feito apenas uma vez, com manutenção. E isso acontece uma vez! Depois haverá os custos inerentes aos carregamentos de conteúdos, e melhoria contínua. Tudo isto é muito menos do que nos custa a todos todo isto. E estou convencido que os custos inerentes são inferiores ao que todos pagamos pelos actuais “manuais escolares gratuitos”.
Por outro lado, os cacifos nas escolas. Imensas escolas já os têm. Até empresas. É uma prática inteligente. Há custos? Sim. Mas, digo eu, não podem ser assim tão incomportáveis. Além de que pode haver um sistema de responsabilização. É uma questão de ver o que nos custa tudo isto actualmente, comparado com um investimento, num ano, seguido de poupanças brutais, nos anos seguintes.
Os livros do Programa Nacional de Leitura, são essencialmente para ler em casa. Esses devem ser em hard copy, papel. Por um lado não são regularmente transportados, por outro, é importante a cultura da leitura, e também através do folhear do papel.
Resumindo.
Tecnologia ao serviço da educação, e a poupar milhões de euros todos os anos. Ao Estado e às famílias. Cacifos nas escolas. Livros para leitura em casa.
Ou seja, em poucas palavras. Tecnologia e Logística. Mas acima de tudo, vontade, capacidade, visão e ... inteligência.
Só não é feito porque não querem.

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