Pobreza de Espírito
Sou, essencialmente, um amante do desporto. Refiro-me ao Praticado e não ao Falado ou Comentado. Digo Desporto, porque é isso mesmo.
Acompanho mesmo os 50km de Marcha da Inês Henriques, e vibrei que nem um louco quando se sagrou Campeã e Recordista do Mundo. Pedi para mudarem o canal do sítio onde me encontrava para ver em directo o concurso do Triplo Salto do Nelson Évora. E por ai adiante. Adoro desporto. Assim fui educado. Na vida. Desporto é um dos pilares da formação. Praticá-lo. Não criticá-lo ou comentá-lo.
Adoro futebol. Mas também adoro Basket, Hóquei em Patins (onde já fomos mais vezes campeões do mundo do que da Europa em Futebol), Voley, Natação... etc
Adoro futebol e vou vê-lo ao vivo. Ou na TV quando necessário. Mas vibro, efectivamente, desde que o árbitro apita para o início, até que o árbitro apita para terminar. E aí vivo intensamente. Mas não sou fanático, cego, estúpido, e muito menos... doente. Mas sou mesmo entusiasta.
Confesso que aqui e ali ouço um ou outro comentário, feito a propósito de um ou outro jogo. E até provoco uma ou outra conversa mais entusiasmada sobre o tema.
Mas (e aqui o meu ponto) não consigo entender, muito menos conceber, num país desenvolvido, como se pode dedicar tanto tempo à discussão sobre - dizem eles - futebol. São horas e horas infindas de discussão. Vários dias por semana, por vários artistas, e... em todos os canais de TV.
Parece-me que estamos com sérios problemas. De identidade, de conteúdos, e acima de tudo de alienação completa, da realidade e do que realmente devia estar a ser discutido, apresentado, ensinado, partilhado... Junte-se à deterioração cultural do que representa 3 e 4 telenovelas seguidas em prime-time a acabar para lá de tarde. E assim, temos o maior comunicador de conteúdos (ainda, e já não por muito tempo) a encher-nos com discussões estúpidas (que pouco ou mesmo nada tem a ver com futebol), e com telenovelas, de conteúdo muito semelhante produzido a metro.
Tenho que fazer excepção a não mais que 5 comentadores, analistas, que são efectivamente bons. E sim, falam de futebol. Da técnica e da táctica, dão opiniões sobre o jogo, as movimentações. Sim falam de futebol. E não perdem tempo com os fait-divers que enchem e insuflam a nossa opinião, não de futebol, mas de desculpas para justificar erros.
Além de tudo o que considero, efectivamente, estúpido, ajudam a sedimentar esta cultura nefasta a que vamos assistindo, de que nós nunca somos culpados de perder. A culpa é sempre de outros. É assim no futebol, mas também é assim nas aulas. “Chumbei porque o prof. é uma besta”...
E por aqui vamos.
Atenção, o Futebol é uma grande indústria, merece bem que lhe seja dado destaque. Mas o futebol. E não esta vergonha a que vamos assistindo. A maior parte dos comentadores, nunca foi sequer desportista, e alguns foram (nódoas) futebolísticas. Enfim.
A juntar ao facto de que estas imensas horas, acabam por insuflar e acender, de forma desmesurada, e intelectualmente limitada, os ódios entre adversários. Nunca o respeito pela qualidade do adversário. Sempre o ódio. O outro nunca ganha porque merece, ganha porque foi ajudado. Tristeza de princípios de sociedade.
Em tempos foi necessário ter quotas obrigatórias de tempo de música portuguesa a passar num dia de emissão. Hoje, essa necessidade já não se coloca.
E se colocássemos quotas de transmissão desportiva? Por exemplo, só se pode transmitir “x” horas de futebol, para cada “y” de outros desportos. E só se pode, ter “x” horas de debate de um desporto, para cada “y” horas de transmissão desse mesmo desporto.
(Já agora até podíamos estender à cultura, ao teatro, pela positiva, e às novelas pela negativa).
Fique claro, tenho imenso respeito, e adoro o desporto. Mas Praticado, não Comentado ou Criticado.
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