Padrasto? Madrasta?
Vou partir do pressuposto de relações equilibradas, normais, onde se cria um lar, com estes actores. Afasto o racional de situações desviantes, complexas e de abusos em qualquer vertente.
Em virtude da sociedade que temos optado por construir, este é um assunto, crescentemente recorrente nos nossos dias. Os nossos filhos têm padrastos, madrastas. Irmãos, meio irmãos, amigos ... [abordarei este tema noutra nota - Filhos. Os Meus, Os Teus e Os Nossos].
E nós somos padrastos, madrastas.
O problema que, calculo, já terão enfrentado, é a carga negativa deste nome. Ainda das reminiscências do fundamentalismo cristão. Vem da mesma cepa que o bastardo, e dos enteados. Tudo nomes anti-lei de Cristo e "ordem natural" das coisas. Por isso a sua carga negativa ainda hoje.
Apesar de o divórcio estar consagrado na lei há já algumas décadas, o facto é que apenas muito recentemente, foi aceite e consagrada a figura do padrasto/madrasta como familiar e responsável e com direitos sobre os enteados.
A verdade é que hoje estas relações tão normais como as do casamento, são desempenhadas por figuras como padrasto, madrasta, enteado(a). E estas nomenclaturas têm na sociedade actual cargas demasiadamente negativas. E era mesmo esse o objetivo quando foram criadas. O lado errado da vida cristã.
Agora como fugir a esta carga negativa?
Tipicamente recorremos à utilização de outros nomes mais comuns, por isso menos agressivos.
Tio/Tia, mais típica nos grupos sociais habituados a utilizar esta nomenclatura, para os amigos e amigas dos pais. Apesar de ser uma utilização relativamente consensual, peca por não distinguir a pessoa e a sua importância na sua vida, das outras a quem dirigimos o mesmo trato. Quando temos um padrasto/madrasta efectivamente envolvido na vida do seu enteado/a, diria que estamos a criar uma insuficiência de especial trato para com estes.
Amigo/a. Garantidamente verdadeira. Ainda assim, tende a confundir-se com os amigos. Os da escola, os da universidade, o que for. Além de que um verdadeiro padrasto/madrasta, é também um educador, um regulador, por vezes um impositor de justiça. Ora isso não cabe ao amigo, ou amiga. Concordo que é uma forma bastante simpática e carinhosa, e até genuína. Peca naquela parte do distanciamento e isenção, que acredito necessário na relação.
Tratar pelo nome. Tem as suas virtudes. Todos gostamos de ser tratados pelo nosso nome. É uma característica humana. Torna-se até óbvio. Porque é assim que nos dirigimos a todas as pessoas. Sem excepção. E tem todos os equilíbrios necessários. Apenas lhe falta um. O próprio "nome" não ser específico no posicionamento imediato nos nossos papéis.
Padrasto/Madrasta. É a realidade. É o que é. E de imediato estabelecemos o parentesco, e posicionamos a relação. Deixando-o claro para nós e para quem nos rodeia. Sim tem a carga negativa. Claro que sim. Acredito que tenderá a dissipar-se esta carga com o desenrolar e normalizar deste tipo de sociedade e opções que vamos fazendo na vida. Mas não, efectivamente ainda estamos pendurados nesta carga negativa.
Não deixa de ser estranho, termos aceite socialmente termos e relações como homosexual, e aceitarmos o marido do marido e a mulher da mulher, enquanto achamos padrasto e madrasta difíceis de usar... Para mim, no mínimo estranho. E de uma hipocrisia gritante.
Eu já fui padrasto. E nada me incomodou tratar e ser tratado como tal. Pelo nome quando directamente, padrasto quando referido a outros.
Há ainda a opção querida, carinhosa, que procura conjugar a nomenclatura “oficial”, tentando retirar-lhe alguma da carga negativa, adicionando o sentimento lindo do pai/mãe. E surgem termos como “Paidrasto” e “Mãedrasta”. Também tem o seu génio, e interesse. É uma escapatória carinhosa. De facto. [Obrigado a si pela dica].
Agora vejamos do lado do enteado/aí, quando a apresentar a terceiros.
Tio/Tia. Não. É o namorado ou marido da minha mãe.
Amigo. Não. É o namorado/marido da minha mãe.
Padrasto. Sim. Padrasto.
Dá para entender?
E quando a falar directamente? Talvez o nome. Ou aquele que o enteado/enteada sentir no seu coração.
Toda esta lógica me parece igualmente aplicável ao trato que o padrasto/madrasta terão face ao enteado/a. Será pelo nome no trato directo, e por enteado/enteada quando referido a terceiros. Em detrimento do filho/filha da minha namorada/mulher.
As coisas são o que são. E nada como vivê-las como tal. Desde que todos os envolvidos estejam perfeitamente alinhados com as nomenclaturas e significados.
Mais complexo, quando estamos todos juntos com filhos enteados. Mas isso é parte integrante de outra nota que farei. [Filhos. Os Meus, Os Teus e Os Nossos].
No final, o importante mesmo, é que sejamos de coração os padrastos/madrastas, que cuidam dos enteados, como pais/mães, encarando-os como filhos/as. Digo eu.
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