Nivelar por Baixo
Há anos que venho apontando e alertando para o que se está a fazer à educação em Portugal. Melhor dizendo, com o facilitismo que foi sendo incutido de forma gradual. Seja na “obrigatoriedade” de passar de ano, em determinados anos, seja pelas reduções de programas, seja pela redução da exigência na avaliação, seja em tanto.
Desengane-mo-nos. O principal objectivo foi, no início e assim se manterá em muito, político “meramente”. Portugal tinha que aumentar drasticamente os níveis de escolaridade, desde a escolaridade mínima obrigatória, e, posteriormente, aumentar os níveis de licenciados.
Isto é um desígnio político nobre. E sim, os objectivos foram atingidos. Maior e mais escolaridade obrigatória, mais licenciados. Fantástico.
O problema é no COMO foi isto atingido. Foi no incentivo ao estudo, ao instigar do orgulho e sentimento de conquista e realização dos estudantes? Por perceberem o quão importante isto seria para a sua vida e dos seus? Por proporcionar melhores condições para incentivar os melhores a serem cada vez melhores, e provocando o envolvimento de todos, no sentido de serem todos melhores? Na adequação dos programas às realidades prementes e perspectivadas para o país? Abrindo cursos técnicos e superiores, que realmente sejam necessários ao país, às realidades actuais? De igual forma fechar aqueles que são absolutamente desnecessários, e funcionam apenas como uma forma de graduar mais uns quantos alunos? Ou até na adequação dos números de ingressos aos cursos? Fazendo da escola uma preparação para a vida real?
Claro que não. Porque isso obrigaria a políticas sérias, uma estratégia de médio e longo prazo definida para o país, comunidades educativas comprometidas e capacitadas, adequação de instalações, e tantas outras coisas.
A sua implementação prática foi, toda ela pela nivelando por baixo. Pelo facilitismo. Pelo fazer esperar os melhores, para que os menos bons pudessem acompanhar (à luz de uma igualdade estupidamente enviesada).
Explico. A igualdade é na linha de partida. Onde todos devem poder estar, com equivalência de meios disponibilizados. Não é, de todo, na linha de meta. Onde esta demagogia da treta nos tem empurrado. Tem que haver vencedores e vencidos. Tem que haver os melhores e os piores. Tem que haver. Faz parte. Porque é assim a vida. Em todo o lado. Em todas as conjunturas religiosas, políticas, societárias, desportivas, militares, ..., todas.
O que está a ser feito é a tentar que todos cheguem mais ou menos ao mesmo tempo à meta. E isso é uma falsidade. Acima de tudo para os que chegaram ao mesmo tempo, sem o merecerem por mérito próprio, mas sim porque o “sistema” assim fez que acontecesse.
Por estas e por outras, vivemos situações de gritante desadequação as médias de acesso ao ensino superior são galopantes. Dos cursos que realmente interessam e têm aplicação na vida real, poucos são os que têm notas de acesso mínimas inferiores a 17.
Mas, tudo estaria bem se acabasse na escola. Mas não. São estes estudantes que estamos a injectar no mercado e na vida real. Mais correctamente, a não conseguir injectar. Porque foram preparados para uma realidade que não existe, e de uma forma absolutamente irreal.
É óbvio que todos os que entraram naqueles cursos top, não são todos reais 17 ou 18 em 20. O problema não é ser o 18, o problema é sentirem que só faltam 2 para a perfeição. E é aqui que o gap é gigantesco.
Por um lado as empresas a dizerem que há muitas características fantásticas nos novos jovens, e recém-licenciados, mas por outro a afirmar que não estão rigorosamente nada preparados para o nosso Mercado de Emprego. Ou seja, temos um Mercado de Trabalho supostamente altamente qualificado, grandes graus académicos, e excelentes notas. Mas que o Mercado de Emprego, reconhece como inadequados e mal preparados. Consequência? Desemprego. Frustração.
E depois, como sempre foram educados de forma fácil, e acessível a todos, é impossível, agora explicar que afinal não era bem assim. E entramos no sentimento que a culpa é dos outros. Do Estado, dos Empresários que são uns malandros, e da Sociedade que é uma treta só pensa em dinheiro, e por aí fora. Porquê? Porque a culpa nunca foi deles! Nunca houve obstáculos reais. Nunca foi preciso realmente lutar por conseguir nada.
Consequência? Desalinhamento total na sociedade. No trabalho e no emprego. Frustração.
Mas nada funciona? Claro que sim. Muita coisa funciona? Muitas escolas muitas universidades. Sim claro que sim. Agora. Qual é uma das regras e características típicas dessas instituições? A Exigência. O primar pela qualidade, pela inovação, pela selecção natural da vida. Pelo assumir claro que não vão chegar todos à meta, e muito menos em igualdade. Será por acaso que depois das empresas são o último e real filtro de selecção? Claro que não. Porque escolhem aquelas instituições e perfis académicos, onde de forma constante os resultados são reais e adequados ao mercado, à vida, à sociedade.
Culpa? De todos. Até dos pais. Ou se calhar começa mesmo por ai. Mas em primeira mão, da política. Que define estratégias para conseguir objectivos quantificáveis e de fácil aceno, ao invés de olhar para este tema de uma forma estruturada. E isso só poderá fazer, quando alguém souber responder a esta pergunta: Que Portugal queremos daqui a 30/40 anos? E a partir daí, começar a preparar pessoas para lá chegarmos.
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